Se ter um irmão é dose, ter dois é viver no Olimpo e teres força divina. Não é nada fácil. Especialmente quando os dois estão no forrobodó todo por causa das colocações. Não é um irmão chato e nervoso, são dois! Um atrasou-se um ano com a matemática - triste. -, mas lá ligou a central e fez aquilo muito bem e outro fez tudo direito mas nas letras - fez a coisa certa que é seguir as minhas pegadas bem grandes e legíveis -. Os dois têm média para entrarem no que querem, por isso, não há de haver grandes problemas. De onde se coloca esta conclusão a que acabei de chegar, porque ainda nem sequer tinha pensado nisso antes (para provar a minha estupidez, deve ser da pressão atmosférica cá em cima):
Vou deixar de ter a casa em Lisboa só para mim.
Mudei-me há dois meses e já vou ter 70% da família em minha casa de novo e nem de outra forma isto faria sentido. Não vão andar a arranjar casas quando tenho uma que chega para os três. A única coisa que me faz sofrer no meio disto tudo é aquela paz silenciosa de teres a casa vazia, que vai morrer assim que eles meterem o pé na entrada.
Aquela sensação de te deitares no sofá e não ouvires um raio que seja. Nada. É tão reconfortante esta sensação pacífica quando tens uma família que não se cala e tem sempre o volume no pico.
Com este rebuliço todo, a única coisa que eu vejo de positivo é que ainda sou o mais velho e sem pais a defender os caçulinhos eu posso mandá-los para onde eu quiser com quantas asneiras eu desejar (o que me confere um grande poder, quem daqui for irmão mais velho vai perceber) e posso trancá-los numa cave sombria até a minha vida de trabalho ficar concluída (nota: lembrar-me de os alimentar).
Outra coisa que vou perder a custo é aquela sensação de privacidade. Tinha a casa só para mim - muito bom para namorar, muito bom MESMO - e agora tenho mais dois com namoradas também. Uma vez que não sou parvo (pareeeece, mas não sou), vou andar constantemente com medo de abrir a porta de casa depressa. Vou contratar uma banda de filarmónica para avisar previamente as minhas chegadas. Se os embaraços podem ser prevenidos, vamos fazer por isso.
Por último, só porque estes pontos todos não chegavam, a minha mãe vai telefonar todos os dias aos meninos para ver se estão bem e depois telefona a mim para saber se o que eles disseram é verdade. Como se eu os fosse encavar caso lhe dissessem algo totalmente falso, mas deixemo-la acreditar, é uma mulher de fé. Transformo-me de "gajo de dois metros a começar a vida" para "Teresinha - a educadora de infância preferida da petizada". Algo me diz que vou comprar um aquário e em vez de um peixe vai lá estar a bateria do meu telemóvel.
Vá, não digam que eu sou um irmão horrendo, eu até gosto daqueles dois (se alguma vez citarem esta minha frase na frente deles, eu irei negar e acusar-vos de difamação) mas gostava da minha casa só para mim também. E fazendo as contas, só aos 26 é que eu vou ver-me livre deles. O raio que parta, claro.
Acho que talvez tenham entendido mal a minha mensagem: eu queria a minha namorada pequenina, loirinha, gira cá e em vez disso trouxeram-me os meus irmãos, gigantescas bestas que atacam o frigorífico em três horas e de giros, loiros e pequenos não têm nada. Isto é um pedido mal feito, não estou a perceber. Livro de reclamações, por favor!
Ah, e é bom que saibam cozinhar, porque este menino aqui já aprendeu montes de coisas mas não tem um restaurante gratuito em casa. Comecem a quebrar ovos, o jantar é por vossa conta! Se eu sofri a aprender a ser uma fada do lar, vocês também vão ter de ser sininhos de casa. Comecem a treinar.
Se a vossa pergunta é se eles também são gajos de dois metros, eu sou o maior (se é que havia alguma dúvida, não é? :p). O meu irmão do meio tem 1,85m e o pequenito tem 1,76m. Têm que comer muita sopinha ainda.